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Sua voz ecoa por paredes, carteiras e janelas. Sua jornada é uma batalha diária, onde a arma é uma ferramenta simples: o giz. O guerreiro do giz e da voz não poderia ser outro senão o professor. O excesso de trabalho, a falta de reconhecimento, a baixa remuneração e a violência em sala de aula são algumas das razões que levam o profissional da educação a se sentir desrespeitado e desprestigiado, como essa reportagem irá mostrar.

 

Segundo pesquisa divulgada pela Varkey Foundation em novembro de 2018, com 35 países, o Brasil ocupa a última posição no ranking de prestígio aos docentes. A pesquisa da ONG sediada na Inglaterra também apontou que dentro da sala de aula, menos de 1 em cada 10 brasileiros (9%) acha que os alunos respeitam seus professores. O retrato da situação dos educadores do país também se reflete no sistema educacional.

O desrespeito ao professor não se limita apenas a desprestígio dos docentes. Nos últimos anos, a ascensão de ideais conservadores na política brasileira levantou o debate nacional sobre o movimento Escola Sem Partido, criando mais uma barreira aos profissionais do magistério.

 

Ser professor também exige bravura e determinação. De acordo com os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) obtidos via Lei de Aceso à Informação, a cada três dias um professor é ameaçado dentro de escolas no estado do Rio de Janeiro.


Devido a condições de trabalho precárias, o magistério exige incessantemente estrutura física e psicológica que, muitas vezes, não são sustentáveis dentro do seu ambiente de trabalho. De síndrome de burnout à lesão por esforço repetitivo (LER), as mazelas são consequências recorrentes aos professores, podendo levar ao afastamento temporário ou definitivo de sala de aula. Os professores são fundamentais na nossa formação enquanto cidadãos pensantes e essa depreciação tem efeitos no desenvolvimento do Brasil.

Desvalorização

Desvalorizados

O magistério viveu seus anos dourados, mareados por compreensão, respeito e disciplina, sendo considerada uma das mais nobres carreiras. Nas últimas décadas, no entanto, a profissão vem sofrendo uma profunda desvalorização e demérito no Brasil, desprestigiando os indivíduos responsáveis pela base da formação de crianças e jovens. “Quando eu estudava, eram outros tempos. No meio dos anos 90, eu acho que os meus colegas não eram tão desrespeitosos, a infraestrutura parecia um depósito do mesmo jeito, a escola nunca foi confortável. Eu via as coisas como criança, eu não notava o calor, o desgaste do professor para dar aula para 40 a 50 alunos, mas tinha muito a questão do afeto”, conta a professora Wanessa Oliveira dos Santos. Hoje, ela dá aula em duas escolas diferentes, uma da rede municipal e outra da estadual. A história chegou a ser pior. Em determinado momento, além das duas matrículas no ensino público, ela estava dando aulas na rede particular de ensino, acumulando três escolas diferentes.

 

A quantidade de aulas e alunos assusta quem não acompanha a realidade de perto, mas, para os docentes, essa é a dura realidade. Sem o salário de pelo menos dois empregos, não conseguem sustentar suas famílias. Segundo pesquisa realizada e divulgada pela Varkey Foundation em novembro de 2018, analisando 35 países, apontou que o salário estimado que um professor ganha no Brasil é 36,3% maior que os professores realmente ganham. A pesquisa da ONG sediada na Inglaterra também apontou que, dentro da sala de aula, menos de 1 em cada 10 brasileiros (9%) acredita que os alunos respeitam seus professores. Mas não é só o salário que afeta o prestígio da profissão. O mesmo levantamento mostrou que o país é o último na posição no ranking de prestígio aos docentes, posição que piorou desde a última pesquisa em 2013, na qual o país estava apenas na frente de Israel.

Fonte: Varkeley Foundation

Ranking da valorização do professor

Evolução dos países ao longo das pesquisas. O Brasil caiu um posição ficando na laterna do índice de valorização do professor. Depois de cinco anos, a China continua liderando nos países que mais valorizam seus educadores.

Além disso, a pesquisa "Profissão Docente", realizada pelo Ibope Inteligência e divulgada neste ano, apontou que, de 2160 professores de educação básica ouvidos, 33% afirmaram estar totalmente insatisfeitos com a profissão, citando a desvalorização da profissão como um dos fatores. O descaso com a educação do país vem de salas de aulas lotadas, excesso de trabalho, falta de reconhecimento e baixa remuneração, conforme apontam as pesquisas. O retrato da situação dos docentes do país também se reflete no sistema educacional.

Foram exatamente esses desafios do magistério que Wanessa, 35 anos, e Rosângela Leal Oliveira, 57 anos, apontaram.  Docentes com muitos anos de carreira ou os novatos que adotam a profissão apontam que é um desafio diário trabalhar nessas condições. Wanessa, a primeira da família a chegar ao ensino superior, é formada em Letras e leciona a disciplina de Português em dois colégios. Moradora do centro do Rio de Janeiro, ela precisa se deslocar até a Pavuna para trabalhar na escola municipal. Depois, se locomove até a Baixada Fluminense para ministrar aulas na rede estadual. Para continuar na profissão, ela procurou no curso de Cenografia da UNIRIO, uma terapia para canalizar tudo que sofre como professora. Questionada se esse novo curso é um caminho para uma nova carreira, ela nega. Ela disse que fez “as pazes” com a educação e não pensa em sair de sala de aula.

Entretanto, a desvalorização não afeta os que estão no início da profissão. Rosângela atualmente é psicopedagoga, mas já esteve em salas de aula com mais de 40 alunos. Apaixonada pela profissão, ela chegou a fazer Pedagogia duas vezes. “Eu parti para a sala de aula pela facilidade horário, pelas férias junto com os meus filhos”, explica.  Ela apenas deixou a sala de aula quando observou que não tinha apoio do sistema para desenvolver seus projetos. Sem perder a esperança na educação do país, resolveu fazer um pós-graduação em psicopedagogia. Para ela, a sala de aula foi essencial para entender sua atuação na vigente profissão. 

 

Assim como Wanessa, a psicopedagoga chegou a dobrar a carga horária. Trabalhou em jornada dupla na clínica e na sala de aula, mas, analisando as dificuldades dessa rotina, prosseguiu apenas com o atendimento clínico.  “Essa necessidade de dobrar para poder melhorar o financeiro, é muito ruim. Só quem trabalha em sala de aula sabe quanto é ruim isso”, afirma Rosângela.

 

Mas a preocupação dos professores não se limita a desvalorização. A falta de respeito em sala de aula é relato frequente nas reuniões de professores. “Me agrediu, me xingava, me segurava e dizia que me odiava, por eu estar mostrando para ele que aquele era o momento de fazer o trabalho. Enfiava as unhas e gritava comigo”, relata Rosangela. Wanessa sofreu com o mesmo problema. “Quando entrei em sala de aula, tive que desenvolver uma máscara de autoconfiança, mesmo tremendo por dentro, tive que me impostar”, comenta a professora de português. Infelizmente, o relato delas é só um reflexo de outro problema da profissão: a violência contra os professores.

Violência

Violência

Além do governo, muitas vezes os professores também são desrespeitados pelos próprios alunos e seus responsáveis, chegando inclusive ao nível da agressão. Essa violência contra os docentes, que vai desde a agressão verbal até a física, é mais frequente do que se imagina. Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), em média, a cada três dias, um professor é ameaçado dentro das escolas do Rio de Janeiro. A professora de educação física, Selma Bellas de Romariz, que leciona há 19 anos na rede pública do estado, garante que os alunos estão cada vez mais violentos. “A fala deles já é violenta entre eles, mas eles não percebem”, explica a professora. Ela também ressalta que muitos são frequentemente repreendidos por xingarem durante a aula, mas não sabem diferenciar “palavrão” das demais palavras.

A professora contou à nossa equipe que já foi agredida verbalmente por um aluno de uma escola onde havia uma quadra coberta e outra descoberta. A situação ocorreu quando a turma estava dividida  nas duas quadras e, no momento da troca de grupos, o aluno teria se recusado a trocar de quadra. “Naquela confusão, eu escutei: ‘Ah, professora, vai tomar no…’. Eu vi quem era e perguntei pra ele ‘Como? Repete.’ porque às vezes eles não esperam que você vai ouvir. Eu pensei ‘não é possível, será que eu escutei isso mesmo?’, logo depois ele ficou dizendo ‘professora, me desculpa’. Ele tremia, mas eu tirei ele da aula porque às vezes você tem que agir”, relata a docente. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cerca de 12 em cada 100 professores brasileiros são agredidos verbalmente pelo menos 1 vez por semana. Para Selma, a violência por parte dos alunos está diretamente ligada à realidade de cada um. “Não sei como é o dia-a-dia na casa deles, mas devem escutar muito palavrão, então, pra eles, isso sai de uma naturalidade como a que a gente fala ‘ai, que coisa’”, destacou Selma.

Os casos de agressão física também são frequentes no estado. Traumatizados pela insegurança em sala de aula, muitos educadores precisam ser readaptados, deixando o ensino nas salas para trabalhar em outros setores, como a secretaria e a biblioteca. Segundo Selma, muitos deles — principalmente os que já foram agredidos fisicamente — ameaçam desistir da profissão, mas para ela, a esperança não pode acabar. “Se a gente não plantar, se a gente não der o nosso melhor, se a gente chutar o balde, o que que vai ser dessas crianças?” declarou. Em 2011 foi proposto pela deputada federal Cida Borguetti (PP-PR) o PL 267/11 que decreta a possibilidade de suspensão ao aluno que desrespeitar o corpo docente ou as normas de ética da instituição de ensino a qual faz parte e, em caso de reincidência, o encaminhamento do mesmo à autoridade judiciária competente. O projeto acabou sendo arquivado e ainda gera opiniões divergentes entre os profissionais de educação.

 

A representante do conselho nacional dos trabalhadores em educação Claudir Sales declarou à Agência Câmara de Notícias não acreditar que colocando um artigo penalizando a criança e o adolescente no estatuto vá resolver. Para ela, seria necessária uma maior valorização da classe, reforçando que “para resolver tem que ter realmente uma política de Estado, uma educação pública com qualidade, uma valorização dos profissionais de educação”. A professora Selma enxerga a família como principal responsável para a redução da violência escolar, destacando que, na maioria dos casos, os filhos reproduzem o comportamento violento que vivenciam em casa. Um outro aspecto familiar levantado por ela é a ausência parental, visto que muitos alunos são criados pela avó devido aos pais estarem presos ou serem ausentes e, caso não tenham avós, moram em abrigos.

"É revoltante você estar numa escola em que você está lá para trabalhar, em que você estudou anos e anos para passar o melhor para os alunos para você chegar lá e ser agredida. Ninguém quer passar por isso, né?"

 

Selma Bellas de Romariz

Por vezes, os familiares dos alunos não são ligados às agressões de forma indireta, mas são os próprios autores das agressões. No dia 29 de setembro, uma professora foi agredida pela mãe de uma aluna da escola municipal Professora Talita Hernandes Perelló, em Cabo Frio. A situação, assim como inúmeras outras, reflete o descaso que a classe vem sofrendo. “O aluno reproduz o que vive em casa. A gente sabe que eles apanham e que eles querem bater, mas também não justifica”, reforça Selma, que acredita que a participação dos pais é indispensável.

A deputada federal Cida Borguetti não é a única parlamentar a propôr um projeto de lei polêmico no meio educacional. Embora não sejam populares entre os docentes, no âmbito nacional, outros projetos têm ganhado força na sociedade brasileira. Uma crítica comum é o fato de que muitos parlamentares que procuram legislar sobre a educação não são e nem promovem o diálogo com os educadores.

Escola Sem Partido

Lei da mordaça

Encabeçado pela primeira vez em 2004 pelo procurador do Estado de São Paulo Miguel Nagib, o projeto Escola Sem Partido, popularmente conhecido como Lei da Mordaça, nasce como reação a uma suposta transmissão de conteúdos ideológicos e político-partidários em salas de aula. Sua motivação para a ideia está relacionada com a crença de que o levantamento desse tipo de informação no ambiente escolar equivale a práticas de doutrinação e cerceamento de liberdade dos alunos. Atualmente, o projeto de lei que sustenta esse debate em escala federal é o PL 7.180/2014, formulado pelos deputados federais Erivelton Santana (PATRIOTA-BA) e Flavinho (PSC-SP), que, em novembro deste ano, teve sua votação agendada na Câmara dos Deputados. Embora ela tenha sido adiada, a discussão sobre o Escola Sem Partido vigora nas esferas política e sociocultural brasileiras.

Desde sua primeira formulação, o projeto se apresenta como um divisor de águas na política e na educação brasileira. Enquanto os defensores do Escola Sem Partido dialogam abertamente com ideologias e pensamentos de direita, os que militam contra o PL possuem um viés mais à esquerda. Devido à relevância do tema para o contexto nacional, as discussões ultrapassam a esfera política e se infiltram também a esfera educacional. A discussão do futuro das estruturas de ensino é uma temática que diz respeito não apenas ao aprendizado dos alunos, mas também aos métodos de ensino utilizados pelos docentes.

"Uma educação isenta de politicagem é fundamental para melhorar a qualidade do ensino no país"

 

Carlos Bolsonaro

Tarcísio Motta

"É muito importante que consigamos resguardar a ideia de que a sala de aula seja um lugar de debates, no qual esteja preservada a possibilidade da diferença de opinião e do debate"

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No estado do Rio de Janeiro, o vereador e entusiasta do programa Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) reforça a proposição de Nagib, comentando que “em vez de ensinar português, matemática, geografia e ciências, com critérios mais objetivos, os professores preferem passar mensagens ideológicas, politicamente corretas, coletivistas, moralmente relativistas, defensoras de um estado cada vez mais onipresente em nossas vidas”. O vereador acredita que a aprovação do Escola Sem Partido seja uma forma de combate à doutrinação marxista de escolas e universidades, afirmando que um dos maiores entraves à sua implementação é a resistência dos docentes. Aliado a essas manifestações, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL-RJ) também levanta a bandeira do combate à chamada "ideologia de gênero" nas escolas, procurando, além de banir conteúdos sobre questões de gênero, o novo governante afirma ser contrário ao educador Paulo Freire, um dos mais influentes pensadores da pedagogia no mundo.

Devido à adesão considerável de políticos ao projeto, os movimentos para a sua aprovação possuem visibilidade no estado do Rio de Janeiro, tendo suas propostas encabeçadas por membros da família Bolsonaro. Atualmente em seu quarto mandato consecutivo, o vereador propôs um projeto de lei a favor da implementação do Escola Sem Partido no âmbito municipal, o PL 867/2014, ainda em tramitação na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Além disso, o deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), em parceria com Miguel Nagib, promoveu o projeto de lei 2.974/2014, que defende a concretização do programa no nível estadual de ensino do Rio de Janeiro. Segundo Carlos Bolsonaro, o projeto do recém-eleito senador é importante para que crianças e adolescentes possam expressar suas opiniões livremente.

No que tange a atuação dos próprios professores em sala de aula, o vereador e professor Tarcísio Motta (PSOL-RJ) enfatiza que "A sala de aula precisa ser o lugar da liberdade de ideias, inclusive da pluralidade de ideias", além de reforçar que incitar . Para ele, o objetivo do PL reside na criação do medo em educadores, fomentando a possibilidade de um processo caso ele descumpra os princípios pregados pelo projeto de lei, ou seja, incentive discussões de cunho ideológico e/ou político-partidário.

Alguns professores, no entanto, possuem críticas ao papel desempenhado pelo educador. Após as eleições, o caso da docente e recém-eleita deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (PSL-SC), entusiasta do Escola Sem Partido, repercutiu fortemente na mídia. A professora de história abriu um canal informal de denúncias, incentivando que, a partir do dia 29 de outubro, um dia após a eleição de Jair Bolsonaro para a presidente, alunos de todo o Brasil filmassem seus professores em sala de aula e enviassem para seu contato pessoal. O vereador do PSOL critica avidamente a situação, apontando que “essa tentativa dela de estimular que os alunos filmem as aulas dos professores para denunciar algum tipo de doutrinação, algo muito vago que eles sempre fazem, é típico deste projeto”, além de frisar que não há defesa de uma escola com partido, ou mesmo uma escola a favor de qualquer partido.

Acompanhe a linha do tempo:

O projeto Escola Sem Partido pretende fazer alterações na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996), lei que orienta a estruturação da educação nacional, que determina que o ambiente escolar incentiva pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, além de fomentar o respeito à liberdade e valorização da tolerância. Dentre as mudanças, o programa quer regulamentar que valores familiares devem se sobrepor à educação escolar no que diz respeito à educação moral, sexual e religiosa. Com a aprovação do PL, docentes terão limitações nos discursos em sala de aula, retirando-lhes o espaço de livre expressão e discussão.

No magistério, diversos são os fatores responsáveis pela deterioração das condições de trabalho dos professores. As restrições à profissão se apresentam de forma multifacetada, cerceando sua atuação dentro e fora das salas de aula. A precariedade do sistema de ensino também se reflete no amparo concedido aos docentes no ambiente de trabalho, não atendendo adequadamente suas necessidades de saúde. Todavia, o aspecto que mais carece de atenção é justamente um dos mais importantes para o educador: a saúde mental.

Esforço Mental e Físico

No limite

A constante desvalorização da profissão docente, bem como o aumento os casos de violência em sala de aula e as precárias condições de trabalho têm efeitos excessivamente danosos à vida do professor, por vezes irreversíveis. Segundo dados colhidos pela International Stress Management Association (Isma), o Brasil é vice no ranking de países com maior número de stress entre a população. Estima-se ainda que 30% dos profissionais brasileiros sofram da Síndrome de Burnout, patologia de ordem psíquica que tem por característica a sensação de despersonalização e a exaustão emocional. Esse mesmo levantamento concluiu que ofícios que exigem interação interpessoal estão mais propensos ao desenvolvimento da doença, o que destaca o professor numa posição de vulnerabilidade.

“Se o professor está doente, o futuro do Brasil também está doente” ponderou Heloísa Helena, professora aposentada de matemática do Estado do Rio de Janeiro, atualmente com 47 anos. Longe das salas de aula desde 2003, a educadora foi aposentada por invalidez após apresentar episódios de depressão e Síndrome de Burnout. “Tudo começou com lapsos de memória, sentia umas dores de cabeça. Fui ao neuro, que me deu 3 dias de licença. Por ser professora do Estado, precisei ir à perícia, que aumentou minha licença em 15 dias. E depois deu 30 dias. De 30 em 30, passaram-se 2 anos” relatou Heloísa, que chegou a ter um ataque vascular cerebral isquêmico, detectado apenas dias após por meio de um exame. “O mais trágico foi a depressão”, contou. A professora e moradora de Japeri, município da Baixada Fluminense, acredita ter vivido tudo o que viveu como consequência do cansaço acumulado. Ela afirma que acreditava ser natural não sentir sono as noites, e que passar madrugadas em claro planejando aulas era uma prática recorrente em seus anos de magistério.

Casos como o de Heloísa são comuns em todo o Brasil. Só neste ano, a profissão docente foi a que mais aposentou trabalhadores no estado do Espírito Santo, segundo dados do Diário Oficial da União (DIO). Registros coletados na Secretaria da Administração do Estado da Bahia (Saeb) estimam que 5 professores sejam afastados por dia no estado. Enquanto no Rio de Janeiro, a Secretaria Estadual de Saúde destacou que metade dos professores da rede estadual que foram afastados o fizeram por problemas psiquiátricos. Contudo, o processo de afastamento das escolas é mais complicado do que parece. A professora readaptada G., que preferiu não se identificar por medo de sofrer retaliações, descreveu casos de humilhação no processo de perícia médica do município do Rio: “Um colega tirou um tumor do intestino há uns 2 meses no máximo e está indo trabalhar de fraldas”. Segundo ela, o processo de esgotamento físico e psicológico é dado, na maioria das vezes, pois a rotina do professor não permite intervalos para a realização periódica de consultas médicas.

No entanto, as patologias desenvolvidas a partir dos excessos na vida profissional, tais quais ansiedade, stress e depressão, não devem ser pensadas como questões individuais do professor. É o que defende a professora de psicologia da educação da UFRJ, Maria Clara de Almeida. Segundo ela, é necessário entender que a escola está inserida na sociedade, e, por conseguinte, é permeável aos problemas sociais como um todo. “Esse sofrimento psíquico precisa ser visto com mais cautela, mais cuidado. É sintoma de um problema maior, e não só um problema do professor. É um problema institucional”, dispara.

"Se existe um médico, ele passou na mão de um professor. Se existe um juiz, ele passou na mão de um professor. Ele tinha que ter o seu devido respeito, o seu devido valor"

Heloísa Helena

A limitação ao uso de medicamentos, que acaba sendo o caminho mais fácil tomado por parcela dos educadores adoecidos, é alvo de duras críticas por parte da professora, que defende  uma melhor articulação entre os sistemas de saúde e educação como medida mais eficaz no combate às doenças: “Se o problema do professor é um problema que surge no trabalho dele como professor, como é que a gente não vai olhar como esse trabalho está organizado?” indaga.. Na perspectiva dela, o diálogo e a troca sobrepõem as pílulas de tarja preta a longo prazo. Chama atenção também para a urgência da criação de espaços institucionais que possibilitem essa troca a fim de que os professores possam ouvir e ser ouvidos. No ano passado, foi encaminhado ao Plenário a PLC 76/2011 - da ex-deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) - proposta que garante a obrigatoriedade do atendimento psicológico a professores e alunos da educação básica dentro do ambiente escolar. No entanto, posteriormente foi encaminhada para a análise da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) onde o relatório do senador responsável ainda não foi apresentado.

Ainda que haja uma desvantagem de 25% em relação aos salários dos demais profissionais com formação equivalente (dado divulgado pelo Inep), a violência provoque medo, a repressão ameace a autonomia e o desgaste canse a voz, os mestres mantém-se fiéis aprendizes dos seus próprios ensinamentos: não desistem. Resistem.

Sobre e Agradecimentos

QUEM SOMOS

Julia, Mathias, Pedro e Pierre são estudantes de jornalismo pela UFRJ. Preocupados com situação educacional do país, o grupo formado para a disciplina de Redação Jornalística I lecionada por Marialva Barbosa em parceria com Alice Melo no ano de 2018 buscou produzir um reportagem multimídia sobre as dificuldades do professor da rede pública do RJ e do Brasil.

Durante a execução do trabalho, todos nós aprendemos um pouco mais sobre uma parcela das atividades realizadas pelos jornalistas, absorvendo temporariamente sua rotina atarefada e corrida da profissão. Cada entrevista, cada texto, cada contato nos permitiu crescermos não apenas como pessoas, mas como futuros jornalistas. A busca pela verdade individual permite visualizar a pluralidade de realidades dos profissionais da educação, tentando compreender as suas precárias condições de trabalho no Rio de Janeiro e, principalmente, no Brasil.

Ao entrar em contato com a realidade complexa e difícil dos professores, foi impossível não nos emocionarmos com os relatos colhidos. Cada olhar brilhante dos docentes traz um misto de tristeza e esperança, reflexo justamente de suas vidas no magistério. Ouvir, mesmo que por um dia, as vozes preocupadas desses profissionais que participam ativamente do crescimento e da construção de crianças e jovens nos permite olhar cada vez mais alarmados para suas condições de trabalho no ensino brasileiro.

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A equipe:
Julia Noia

Mathias Felipe

Pedro Nery

Pierre Borges

Agradecimentos:
Jeanne Lima

Lara Cartier

Anna Lucia de Lima e Silva

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